23 de fev. de 2008

ARTISTA DA PALAVRA, CECÍLIA MEIRELES MOSTROU O MUNDO EM PROFUNDIDADE

Artista da palavra, Cecília Meireles mostrou o mundo em profundidade
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Cecília Prada
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"Sua alma é com certeza milenar, na consciência com que desce às raízes do sentimento poético, considerando a sua fatalidade, e ao mesmo tempo deixando-se levar na ciranda aparentemente inútil dos sonhos, idealizações e freqüentes nostalgias de um estado ideal e perfeito de pulsar."
Walmir Ayala
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Circunstâncias trágicas marcaram o início da vida de Cecília Meireles, nascida no Rio de Janeiro a 7 de novembro de 1901 e na mesma cidade falecida em 9 de novembro de 1964. Seu pai, Carlos Alberto de Carvalho Meireles, funcionário do Banco do Brasil, morreu aos 26 anos de idade, três meses antes de a filha nascer. Sua mãe, a professora municipal Matilde Benevides, morreu quando ela tinha 3 anos. Sozinha no mundo com a única remanescente da família, sua avó materna Jacinta Garcia Benevides, Cecília foi obrigada a manter "uma tal intimidade com a Morte que docemente aprendi essas relações entre o Efêmero e o Eterno que, para outros, constituem aprendizagem dolorosa e, por vezes, cheia de violência" (entrevista a "Manchete", 1959).
No entanto, lembrava sua infância de menina sozinha, que aprendia a cultivar como dons o silêncio e a solidão, como uma época maravilhosa – um fecundo tempo de aprendizado da realidade, o armazenamento de memórias, impressões e sensações que perdurariam, dando-lhe o material de sua imensa obra ("Grande aula, a do silêncio").
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FERNANDO PESSOA E CECÍLIA MEIRELES: O ENCONTRO ENTRE POESIA E CRIANÇA

Fernando Pessoa e Cecília Meireles: o encontro entre poesia e criança
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Alice Áurea Penteado Martha
Universidade Estadual de Maringá (Brasil)
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Quando as crianças brincam
Eu as oiço brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar
E toda aquela infância
Que não tive me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.
[...]
(Pessoa, 1965, p.169)
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Considerações iniciais
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Com este texto pretendemos considerar, a partir da leitura de poemas de Fernando Pessoa e de Cecília Meireles, os recursos de que se valem os poetas para promover a mediação entre a produção poética e a criança. Os poemas do autor de Mensagem, publicados em épocas e volumes diversos, foram recolhidos no volume Fernando Pessoa. Comboio, saudades, caracóis (FTD, 1988), organizado por João Alves das Neves e revelam uma face pouco conhecida do poeta; os da escritora brasileira, reunidos no livro Ou isto ou aquilo (Nova Fronteira, 1987), vieram a público em 1965 e são inteiramente dedicados aos leitores infantis. É preciso enfatizar que não se trata, como a princípio poder-se-ia supor, de um estudo sobre os modos como a infância de ambos é refletida em sua produção poética, tema, aliás, do artigo publicado por Francisco Cota Fernandes, Fernando Pessoa e Cecília Meireles: a poetização da infância, na revista do Centro de Estudos Pessoanos, Persona 5, de abril de 1981. Trata-se, isto sim, de observar como ambos, grandes poetas da nomeada “poesia para adultos”, não reduziram a qualidade estética de sua produção quando o intento era chegar até seus pequenos leitores. Ambos souberam, ao dirigir-se à criança, como revitalizar a palavra poética, concedendo-lhe tratamento mágico, sem desrespeitar-lhe o estatuto artístico.
Há um dado biográfico interessante dos poetas que não deve ser desprezado, pois pode ser relevante para compreender as imagens da infância em seus poemas, mesmo em uma leitura mais introdutória como esta, que é a herança cultural açoriana de ambos, advinda do fato de terem sido criados em ambientes prenhes de sensações e cadências dos Açores. Fernando Pessoa, filho de mãe açoriana, convive ainda com outros integrantes da linhagem materna; Cecília Meireles, órfã de pai e mãe, na mais tenra idade, é educada pela avó materna, D. Jacinta Garcia de Benevides, também de origem açoriana, como a própria escritora observa: “[...] minha avó, com quem fiquei, depois de perder minha mãe, sabia muitas coisas do folclore açoriano, e era muito mística, como todos os de S. Miguel”. (MEIRELES, 1977, p.61)
Embora não tenhamos a intenção de ressaltar significativo número de poemas para a infância na obra de Fernando Pessoa, como ocorre com a produção poética de Cecília Meireles, é interessante observarmos o modo como ambos promovem, em textos das obras mencionadas, por meio da tematização do cotidiano infantil e pela adoção de um ponto de vista valorizador do anticonvencional, tanto da linguagem quanto do recorte do real, o encontro entre a poesia e a criança. Devemos enfatizar, ainda, que os poetas, ao se inspirarem no cotidiano e ao assumirem a ingenuidade da ótica infantil, incorporaram, na poesia para crianças, os princípios da lírica contemporânea, segundo os quais os temas mais prosaicos podem revelar intenso lirismo.

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ANÁLISE ESTILÍSTICA DO POEMA CRIANÇA, DE CECÍLIA MEIRELES

ANÁLISE ESTILÍSTICA DO POEMA CRIANÇA, DE CECÍLIA MEIRELES
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Alessandra Almeida da Rocha
(UERJ)
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Criança
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Cabecinha boa de menino triste,
de menino triste que sofre sozinho,
que sozinho sofre, - e resiste.
Cabecinha boa de menino ausente,
que de sofrer tanto, se fez pensativo,
e não sabe mais o que sente...
Cabecinha boa de menino mudo,
que não teve nada, que nào pediu nada,
pelo medo de perder tudo.
Cabecinha boa de menino santo,
que do alto se inclina sobre a água do mundo
para mirar seu desencanto
Para ver passar numa onda lenta e fria
a estrela perdida da felicidade
que soube que não possuíria.
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No primeiro verso da primeira estrofe, o “eu” lírico inicia a descrição de um menino de maneira afetiva,quando coloca o substantivo “cabeça” no diminutivo “cabecinha”, reforçado, logo em seguida, pelo adjetivo “boa”. A palavra “cabecinha” é uma metáfora para a personalidade, ou seja, um menino de boas atitudes. Apesar disso, o menino é um ser triste.
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IMAGINÁRIO INDIANO NAS CRÔNICAS DE VIAGEM DE CECÍLIA MEIRELES

Imaginário indiano nas crônicas de viagem de Cecília Meireles
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Cássia Ducati
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"Cada lugar onde chego é uma surpresa e umamaneira diferente de ver homens e coisas."
(Cecília Meireles)
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Para representar artisticamente às experiências cotidianas da sociedade, o gênero literário que mais se adaptou e correspondeu as expectativas de escritores e de leitores foi a crônica. A crônica imita o cotidiano, o mundo do dia a dia, em que um café da manhã simples, solitário e comum pode vir a ser a matéria para a reflexão do homem moderno. Suas primeiras manifestações ocorrem, no Brasil, a partir do momento que o jornal tornou-se cotidiano. Em sua evolução, mudou o foco primeiro de sua função, que era a informação para o divertimento. Antônio Cândido comenta essa evolução:
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"Creio que a fórmula moderna, onde entra um fato miúdo e um toque humorístico, com o seu quantum satis de poesia, representa o amadurecimento e o encontro mais puro da crônica consigo mesma."(Candido, p.15)
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Inicialmente a crônica pretendia o registro dos fatos e de suas circunstâncias respeitando uma ordenação cronológica, atualmente sua matéria admite também a subjetividade do narrador-autor. Como registrou Jorge de Sá, acrescida de "uma roupagem mais literária", a crônica transforma-se :
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"em vez do simples registro formal, o comentário de acontecimentos que tanto poderiam ser do conhecimento público como apenas do imaginário do cronista, tudo examinado pelo ângulo subjetivo da interpretação, ou melhor, pelo ângulo da recriação do real." (Sá, p.25)
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UM MAR COM VIAGENS: CECÍLIA MEIRELES E NATÉRCIA FREIRE

UM MAR COM VIAGENS: CECÍLIA MEIRELES E NATÉRCIA FREIRE
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Ana Maria Domingues de Oliveira
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FACULDADE DE CIÊNCIAS E LETRAS
UNESP
ASSIS - SÃO PAULO – BRASIL
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Neste ano em que se comemora o centenário do nascimento de Cecília Meireles, é mais uma vez oportuno lembrar que sua obra é repleta de referências intertextuais à literatura portuguesa, matéria que tem sido objeto de meus estudos há alguns anos. Aqui,tentarei aprofundar o estudo de algumas dessas relações, através do confronto da obra ceciliana com a de Natércia Freire, poetisa e intelectual atuante no panorama cultural português do século XX.
As relações entre Cecília Meireles e Portugal foram sempre intensas, tanto do ponto de vista pessoal quanto literário. Descendente de portugueses e açorianos, a poetisa, desde muito cedo, teve contato com as tradições, a cultura e a arte portuguesas. Em 1922 casou-se com o artista plástico português Fernando Correia Dias, ilustrador de vários periódicos e livros em Portugal e no Brasil. Com ele, teve suas três filhas e, em sua companhia, viajou pela primeira vez a Portugal, em 1934. Nesse país era já então considerada autora de certo peso, desfrutando, até mesmo, de um reconhecimento que a própria crítica brasileira não lhe havia conferido. Durante essa estadia, Cecília Meireles travou contato com vários intelectuais portugueses, com os quais manteve correspondência depois de sua volta ao Brasil e até quase o final de sua vida. Entre tais intelectuais, encontram-se, por exemplo, David Mourão-Ferreira, Natércia Freire, Adolfo Casais Monteiro, João Gaspar Simões, e, nos Açores, Armando Côrtes-Rodrigues, Vitorino Nemésio e João Afonso.
Dez anos depois dessa viagem, Cecília Meireles publicaria, com prefácio e seleção de sua autoria, a antologia Poetas novos de Portugal, compondo um panorama bastante significativo da poesia portuguesa da primeira metade do século XX.
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